quinta-feira, 5 de julho de 2007

Pedaços



O Vitor e o João já partiram hoje para o Luxemburgo...
Queria ter lá ido despedir-me deles, mas faltaram-me as forças e a coragem de me levantar ás 6 da manhã para lhes dar aquele abraço. Não as forças para ir ter com eles aqui ao largo , mas para vir de volta a casa.

O medo de me deixar embalar pelo sitio que mais visito quando cá estou rivaliza com o sitio que mais visito também na minha mente, esquecendo que tenho que voltar para uma vida que não é a minha mas que tenho vivido tentando encontrar-me com o que era e por isso... Perdoai-me amigos por não vos dizer adeus mas estarei cá para vos abraçar no vosso regresso.

Acordo ás 13 horas, levanto-me e mais uma vez solto o habitual "puta que pariu, que merda de vida" e dirijo-me á casa de banho mas nem me apetece tomar banho hoje, talvez vá daqui a pouco e desfazer a barba, quando fizer a digestão e a medicação já me deixar pensar de forma mais lúcida. Lavo a cara, reconheço-me ao espelho e isso basta-me, já tive um aspecto pior.

Bato a porta degavar, olho só mais uma vez, nem a fecho à chave e deixo as minhas pernas caminharem em direcção à vida. Olho um segundo para trás e verifico se a porta está fechada.
Enquanto caminho sinto o peso dos meus passos na tarde deserta. O calor do dia ainda cobre tudo e o sol afasta as gentes da rua. Espero o meu carrasco na "mina" de tantas alegrias. Olho as pedras no chão ainda adormecidas pela noite mas com o interior cheio de alegria de festas passadas e já preparadas para receberem mais uma este fim-de-semana. O calor empurra-me para dentro de mim enquanto vejo o ar a sair em nuvens da minha boca, ou é o fumo do cigarro que vou fumando enquanto os meus passos trazem ainda o meu corpo adormecido por trilhos que já conhecem de cor. Por momentos desejo que venha o frio, e me deixe aqui plantado, congelado num dos bancos do largo como uma estátua, eterno espectador de um teatro inesquecivel.

Mas a lucidez acaba por vir e eu dando um último olhar ao mundo que se me desaparece entro na viagem, na minha viagem. Com o andar vou vendo o sol a surgir pelo branco para derreter o que a noite tornou quieto. Um nevoeiro acompanha-me até á "mina". Enquanto viajo entram reticentes "mineiros"que viajam para a sua luta diária ou apenas fazem de uma curta estadia menor aqui no café uma das suas lutas diárias.

Tomo um café, peço outro a seguir á Beta, que com muita paciência lá me vai atendendo café a café.Eu adoro café e então quando tomo dois quase seguidos estes trazem-me de volta o mundo que abandonei ao entrar no estado que entrei. Trazem-me o prazer de quando era o gajo que apenas sossegava ao ouvir a "Black" dos Pearl Jam e da qual fiz o meu hino de vida e estes cafés ajudam, consomem-me o pensamento. O meu desalento e tristeza deixei-os lá atrás, lá fora, ali no passeio a ver se se cansam na minha espera e se vão embora como quem diz: " não vens? vai-te foder que nós já vamos".

Já na "mina" e novamente na segura solidão da penumbra que o palanque me oferece. Aqui sem nunca o ter descoberto, descubri o local ideal para estar...parece que foi feito para mim, não sei...

Gostava e até me apetece ir ver o rio, ficar ali sentado enquanto ele vai escorrendo a meu lado. Não o faço, por trazer a memória do que já não é meu. O nevoeiro solidário que o meu cigarro vai brotando fecha a cortina para que não ceda à tentação. Em criança sonhava com o frio, para que viesse sobre o Tamega e o congelasse. Correria então por ele acima para chegar de novo ao cais que no cimo do rio me esparava. Agora sei-o impossivel e por isso me amargura e entristece olhar para ele quando vindo da outra margem de lá volto para à casa que não é a minha mas dos velhos avós já cansados.

Depois quando as saudades já me arderem no peito voltarei ao seu encontro, talvez a Ribeira ou a Barco do Souto e olhando a água lanço fora as lágrimas que nao me interessam e este que é o meu sonho faz com que a proxima vez que lá volte seja apenas para sorrir, nadar ou então em velhinho, pescar.

Por agora prefiro a escuridão e a penumbra da "mina" e a companhia do Kiev que agora vem de olhos baços e tristes sentar-se junto a mim.


Na Foto: as ninas do palanque

3 comentários:

Anônimo disse...

Sabes, era para ter ido conhecer a "Mina" hj. Fizeste o convite, eu disse que até talvez fosse, mas depois recuei. Cheguei a casa depois de ter ido passear com a minha irmã (que já diz que estou a ficar velha e já é preciso uma grua para me tirar de casa), e sentei-me aqui. Li o teu texto e fiquei a pensar que se calhar deveria ter ido, talvez pudesse sentir os efeitos desse vosso cantinho, de tantas vezes que ouço falar na paz e tranquilidade que ele transmite.
Mas o que é certo é que acabei por voltar para o meu mundo, e deixei-me ficar aqui a pensar que se calhar essa "Mina" não me pertence, nem surtiria em mim os efeitos que descreves nestes teus textos.
Hoje estou assim, derrotista. Não consigo olhar para a minha vida e tirar dela algo que me faça sorrir...
Não sou mineira, não fui à Mina, mas continuo consciente e digo de minha justiça.
Gostei mt do teu texto. Talvez devesses ir mesmo ver o rio. Às vezes enfrentar os nossos medos acaba por ajudar a ultrapassa-los.

Com todo o carinho que sinto por ti, deixo-te um beijinho.

Anônimo disse...

boas.
ainda nao tinha deixado nenhum comentário, apenas por nao saber o que dizer. quero apenas dizer que escreves muito bem e que ainda bem que te tenho como amigo.
um forte abraço amigo
tattéS - o homem dos dois tt

Anônimo disse...

Agora ja sei melhor quem és e do que gostas...vi o teu perfil.Acho que já te vi por lá a tocar viola.
Gosto dos teus textos, acho que escreves bem e considero isso uma delicia para os olhos.Obrigado por trazeres a "mina" até nós.