
Sabíamos que avançaríamos noites adentro para estarmos ali todos sentados a cantar, falar, tocar viola. Havia um misto de determinação e desespero, cansaço e força, amor e ódio nos olhos de todos. Era tudo intenso demais, as sensações misturavam-se com gosto de montanha russa.
Saí do meu quarto para apanhar um pouco de ar. Desci as primeiras escadas e apoiei-me na grade da esplanada do meu avô. Diante de mim uma noite fria e escura, com ares de chuva que se parecia aproximar. Respirei fundo antes de acender o meu fiel companheiro, o cigarro ventil. E antes que pudesse dar conta, estava, mais uma vez, mergulhado nas árvores e nas pedras deste largo que me viu crescer ano após ano.
Como de costume, veio a melancolia, a saudade do que não sei, o gosto doce-ácido de ser cliente daquele lugar que tanto namorei e ainda namoro, por tanto tempo. Estas velhas árvores acompanharam-me por muitos anos. De miudo a rapaz, a homem e quiça assistirão á minha transformação em velho. De noivo de um sonho de felicidade a pai de toda a tristeza do mundo. De actor da minha vida de aldeia de Penafiel a morador da mais linda vila do mundo: Rio de Moinhos, aldeia velha...vila adolescente Rio de Moinhos, que encerra os meus mais guardados medos, que muitos dias me viu chorar por dentro.
E nesta nostalgia da minha tão solitária posição, saltei para um pensamento que transitava entre sedativo e aterrador. Está tudo a girar, pensei. Estas árvores que me acompanham, tão solenes, tão constantes, a olharem-me com seus olhos seculares, de firmes não têm nada e têm tudo. Estão a girar. E tão rápido que não há tempo de sair do lugar.As minhas mãos, que sempre me protegem do que é maior do que eu, estão a girar. Estas lágrimas que caem tão lentas e aflitas, estão mesmo a cair? Estão a girar. E todos aqueles que estão longe de mim, apertam de saudade o meu coração, estão a girar. E toda a dor, todo o amor, todo ardor que carrego em mim, estão em mim, estão a girar. Todas as lutas, as lástimas, as mágoas, os gritos que ficam no ar, até estes estão a girar.
Lembrei-me de quando era bem pequenito, não passava dos 7 anos, e todos os dias inventava um nome diferente para usar. O meu avô adorava. "Qual é o teu nome hoje, Armindo?", perguntava ele. "Não me chame Armindo", dizia o pequeno eu. "chame-me Marco Chagas", "Fernando Gomes", "Joaquim Santos". Eu acreditava no que estava a dizer, lembro-me bem da sensação. Eram os meus idolos, um no ciclismo, outro a marcar golos no Porto e outro nos rallies. A cada dia, eu era um, e via-me com cabelo, pele, altura, voz e jeito diferentes. A cada dia, eu era um.
E as árvores levaram-me ainda mais longe. Levaram-me ao recreio da primeira escola onde andei. Ao meu primeiro dia de aulas. A Dª Lurdes das bombas do Penedo da Pena a ensinar-me as letras e os numeros. Eu tinha 6 anos. Vi todas aquelas crianças, algumas choravam a plenos pulmões, outras riam juntas, outras mais velhas e já em classes adiantadas corriam para o abraço de professoras de anos anteriores. Todas saíram do pátio, eu fiquei. Não sabia onde estava, para onde iria, quanto tempo levaria. Foi a primeira vez que vi o mundo girar. O pátio ficou de recordação, as paredes saíram do lugar, não havia chão sob os meus pés. Mas não me lembro de sentir medo. Só havia a vertigem. Só havia o mundo a girar.
Girei então por todos os lugares por onde me enganei e me encontrei. Girei com a mesma vertigem dos meus 6 anos, só que o mundo é agora maior! E vi tanta gente a passar, e tão rápido, alguns nem me lembro do nome, outros cravados em brasa na minha mente e no meu coração. Vi um novo recreio, que mudou tanto. O recreio da Escola... As mil vezes em que estive aqui, passei por ele, e todas as esperanças e desesperanças que carregava comigo. Todas as perguntas que fiz a mim e aos outros, muitas sem qualquer palavra pronunciar. E aquela terrível impressão de que há algo no ar que tenho que, mas não consigo, agarrar. De que, por mais que faça projectos, artigos, divisões, estou a sabor do vento. Ou do tempo. Que nada nasce pronto e talvez nunca alcance este estado. Nada está pronto, nunca. Está tudo a girar.
E senti-me tão pequeno diante desse mundo que gira sem parar. Tão menor que aos meus 6 anos. E não me vou esquecer do medo que senti naquela hora, vontade de dizer ao mundo para parar que eu queria descer. Medo de tudo o que era esperado de mim. De navegador firme e inabalável que tinha de ser, do sábio vádio da vida, do poderoso sonhador, do ponderado aluno, do compreensivo amigo, do responsável filho e neto. Dos tantos que eu tinha que ser num só dia.
Mas não havia tempo para navegar nesse movimento. As árvores, as mães árvores, as deusas árvores já me diziam: não nos alcançamos. A velocidade é superior. O tempo é superior. O Tempo é Deus. É tudo tão transitório. "Tudo é esforço para alcançar o vento", já dizia o Rei Salomão. Só nos resta, ao final, a memória da pele e a memória da alma. Só nos resta o que fizemos às pessoas e o que permitimos que elas fizessem connosco. Só me resta o que senti quando cada um daqueles que passou por mim nesses giros do meu mundo me tocou. Só me resta o gosto do beijo, o cheiro do abraço, o ardor do estalo, o contacto da voz. Só me resta a paixão, o amor, as destemperanças e as tempestades.
Dali parece que, por alguns segundos, alcancei minha essência novamente. Lembrei-me dos três que perdi e como o tempo me ensinou. Da primeira que me avisou, "não posso mais, estou de partida", e da minha descrença, para encontrá-la no dia seguinte, e do meu choque, ao vê-la lá, ida embora para sempre, com um copo negro ao lado do seu lindo e pequeno corpo, de menina, aos 20 anos. Do segundo que me avisou, "não vás", e da minha teimosia, e do estampido do tiro que não matou, mas levou de nós para sempre, e do seu pedido, e ali, talvez ali, a minha dor fosse do tamanho do mundo, o meu mundo, tivesse parado de girar por um longo par de segundos.
Muita gente querida se foi, e com eles extensos pedaços do meu coração, mas os que ficaram encontraram e encontram amores do mesmo tamanho. E, às vezes, muitas vezes, encontraram também a incompreensão. É difícil entender a minha urgência, aquela urgência que tento mascarar de mil formas, mas que escapa de todas as máscaras. A urgência de quem não pode mais suportar a despedida sem que tudo seja dito e sentido. A urgência de quem já disse adeus definitivo e que sabe, o mundo está a girar. Essa é a minha essência, a urgência. O mundo, no final das contas, não tem nada de sólido. E quem sabe onde tudo vai parar daqui a pouco? E o que fica é tão pouco. Da para fazer uma lista na palma da mão.
E por ter que ser muitos, sei que o maior de todos os meus medos é não deixar claro quem realmente sou. Não, não deixo claro mesmo. Talvez nunca tenha deixado. No fim das contas eu fui apanhar ar, naquela noite, embuído do desespero de que alguém naquele café viesse até mim e dissesse, "eu sei quem és". Não com palavras é claro, poucas palavras ficam, mas com os braços estendidos e o peito oferecido. Eu atirar-me-ia com a urgência do último segundo e nele seria o mais feliz dos muitos eus. Mas só as árvores me deram abrigo. Então acabei o meu cigarro e voltei para casa. Literalmente. Era um café, era uma sala, algo parecido com uma mina. Era, então, uma sala de espelhos, às vezes um jardim, outras um labirinto. Ali gira tudo, mas constroem-se mundos.
E com o meu coração a bater no compasso da urgência estendi os braços, e ofereci o peito para o primeiro que vi.E faço sempre assim agora quando preciso.Passo o largo, observo as árvores, penso no que elas sabem e me dizem e entro na mina e ofereço-me ao primeiro sorriso.
Saí do meu quarto para apanhar um pouco de ar. Desci as primeiras escadas e apoiei-me na grade da esplanada do meu avô. Diante de mim uma noite fria e escura, com ares de chuva que se parecia aproximar. Respirei fundo antes de acender o meu fiel companheiro, o cigarro ventil. E antes que pudesse dar conta, estava, mais uma vez, mergulhado nas árvores e nas pedras deste largo que me viu crescer ano após ano.
Como de costume, veio a melancolia, a saudade do que não sei, o gosto doce-ácido de ser cliente daquele lugar que tanto namorei e ainda namoro, por tanto tempo. Estas velhas árvores acompanharam-me por muitos anos. De miudo a rapaz, a homem e quiça assistirão á minha transformação em velho. De noivo de um sonho de felicidade a pai de toda a tristeza do mundo. De actor da minha vida de aldeia de Penafiel a morador da mais linda vila do mundo: Rio de Moinhos, aldeia velha...vila adolescente Rio de Moinhos, que encerra os meus mais guardados medos, que muitos dias me viu chorar por dentro.
E nesta nostalgia da minha tão solitária posição, saltei para um pensamento que transitava entre sedativo e aterrador. Está tudo a girar, pensei. Estas árvores que me acompanham, tão solenes, tão constantes, a olharem-me com seus olhos seculares, de firmes não têm nada e têm tudo. Estão a girar. E tão rápido que não há tempo de sair do lugar.As minhas mãos, que sempre me protegem do que é maior do que eu, estão a girar. Estas lágrimas que caem tão lentas e aflitas, estão mesmo a cair? Estão a girar. E todos aqueles que estão longe de mim, apertam de saudade o meu coração, estão a girar. E toda a dor, todo o amor, todo ardor que carrego em mim, estão em mim, estão a girar. Todas as lutas, as lástimas, as mágoas, os gritos que ficam no ar, até estes estão a girar.
Lembrei-me de quando era bem pequenito, não passava dos 7 anos, e todos os dias inventava um nome diferente para usar. O meu avô adorava. "Qual é o teu nome hoje, Armindo?", perguntava ele. "Não me chame Armindo", dizia o pequeno eu. "chame-me Marco Chagas", "Fernando Gomes", "Joaquim Santos". Eu acreditava no que estava a dizer, lembro-me bem da sensação. Eram os meus idolos, um no ciclismo, outro a marcar golos no Porto e outro nos rallies. A cada dia, eu era um, e via-me com cabelo, pele, altura, voz e jeito diferentes. A cada dia, eu era um.
E as árvores levaram-me ainda mais longe. Levaram-me ao recreio da primeira escola onde andei. Ao meu primeiro dia de aulas. A Dª Lurdes das bombas do Penedo da Pena a ensinar-me as letras e os numeros. Eu tinha 6 anos. Vi todas aquelas crianças, algumas choravam a plenos pulmões, outras riam juntas, outras mais velhas e já em classes adiantadas corriam para o abraço de professoras de anos anteriores. Todas saíram do pátio, eu fiquei. Não sabia onde estava, para onde iria, quanto tempo levaria. Foi a primeira vez que vi o mundo girar. O pátio ficou de recordação, as paredes saíram do lugar, não havia chão sob os meus pés. Mas não me lembro de sentir medo. Só havia a vertigem. Só havia o mundo a girar.
Girei então por todos os lugares por onde me enganei e me encontrei. Girei com a mesma vertigem dos meus 6 anos, só que o mundo é agora maior! E vi tanta gente a passar, e tão rápido, alguns nem me lembro do nome, outros cravados em brasa na minha mente e no meu coração. Vi um novo recreio, que mudou tanto. O recreio da Escola... As mil vezes em que estive aqui, passei por ele, e todas as esperanças e desesperanças que carregava comigo. Todas as perguntas que fiz a mim e aos outros, muitas sem qualquer palavra pronunciar. E aquela terrível impressão de que há algo no ar que tenho que, mas não consigo, agarrar. De que, por mais que faça projectos, artigos, divisões, estou a sabor do vento. Ou do tempo. Que nada nasce pronto e talvez nunca alcance este estado. Nada está pronto, nunca. Está tudo a girar.
E senti-me tão pequeno diante desse mundo que gira sem parar. Tão menor que aos meus 6 anos. E não me vou esquecer do medo que senti naquela hora, vontade de dizer ao mundo para parar que eu queria descer. Medo de tudo o que era esperado de mim. De navegador firme e inabalável que tinha de ser, do sábio vádio da vida, do poderoso sonhador, do ponderado aluno, do compreensivo amigo, do responsável filho e neto. Dos tantos que eu tinha que ser num só dia.
Mas não havia tempo para navegar nesse movimento. As árvores, as mães árvores, as deusas árvores já me diziam: não nos alcançamos. A velocidade é superior. O tempo é superior. O Tempo é Deus. É tudo tão transitório. "Tudo é esforço para alcançar o vento", já dizia o Rei Salomão. Só nos resta, ao final, a memória da pele e a memória da alma. Só nos resta o que fizemos às pessoas e o que permitimos que elas fizessem connosco. Só me resta o que senti quando cada um daqueles que passou por mim nesses giros do meu mundo me tocou. Só me resta o gosto do beijo, o cheiro do abraço, o ardor do estalo, o contacto da voz. Só me resta a paixão, o amor, as destemperanças e as tempestades.
Dali parece que, por alguns segundos, alcancei minha essência novamente. Lembrei-me dos três que perdi e como o tempo me ensinou. Da primeira que me avisou, "não posso mais, estou de partida", e da minha descrença, para encontrá-la no dia seguinte, e do meu choque, ao vê-la lá, ida embora para sempre, com um copo negro ao lado do seu lindo e pequeno corpo, de menina, aos 20 anos. Do segundo que me avisou, "não vás", e da minha teimosia, e do estampido do tiro que não matou, mas levou de nós para sempre, e do seu pedido, e ali, talvez ali, a minha dor fosse do tamanho do mundo, o meu mundo, tivesse parado de girar por um longo par de segundos.
Muita gente querida se foi, e com eles extensos pedaços do meu coração, mas os que ficaram encontraram e encontram amores do mesmo tamanho. E, às vezes, muitas vezes, encontraram também a incompreensão. É difícil entender a minha urgência, aquela urgência que tento mascarar de mil formas, mas que escapa de todas as máscaras. A urgência de quem não pode mais suportar a despedida sem que tudo seja dito e sentido. A urgência de quem já disse adeus definitivo e que sabe, o mundo está a girar. Essa é a minha essência, a urgência. O mundo, no final das contas, não tem nada de sólido. E quem sabe onde tudo vai parar daqui a pouco? E o que fica é tão pouco. Da para fazer uma lista na palma da mão.
E por ter que ser muitos, sei que o maior de todos os meus medos é não deixar claro quem realmente sou. Não, não deixo claro mesmo. Talvez nunca tenha deixado. No fim das contas eu fui apanhar ar, naquela noite, embuído do desespero de que alguém naquele café viesse até mim e dissesse, "eu sei quem és". Não com palavras é claro, poucas palavras ficam, mas com os braços estendidos e o peito oferecido. Eu atirar-me-ia com a urgência do último segundo e nele seria o mais feliz dos muitos eus. Mas só as árvores me deram abrigo. Então acabei o meu cigarro e voltei para casa. Literalmente. Era um café, era uma sala, algo parecido com uma mina. Era, então, uma sala de espelhos, às vezes um jardim, outras um labirinto. Ali gira tudo, mas constroem-se mundos.
E com o meu coração a bater no compasso da urgência estendi os braços, e ofereci o peito para o primeiro que vi.E faço sempre assim agora quando preciso.Passo o largo, observo as árvores, penso no que elas sabem e me dizem e entro na mina e ofereço-me ao primeiro sorriso.
2 comentários:
"Pare o mundo, quero descer".
cada vez que te leio, fico espantado, com a tua capacidade de escrita, escreves incrivelemente bem, e mais que isso, consegues passar para o "papel" os sentimentos que nos rodeiam, ou melhor, que te rodeiam.
um forte abraço amigo
tattéS - o homem dos dois tt
Fiquei de tal maneira embevecida com este texto que confesso que me custou um pouco juntar as palvras e formar um pequeno texto aqui, um texto que tentasse deixar transparecer o que senti ao ler o teu "pequeno eu".
Brutal. Talvez seja a palavra certa, talvez seja até mais do que isso porque tu giras mundos com as tuas palavras e com a forma como pintas o que os teus olhos sentem, o que o teu coração vê, e o que os passos encontram.
Sabes que te leio sempre, e encontro em cada texto que escreves um pedaço de ti que desconheço. E cada pedaço eu vou juntando aos restantes, ao que colhi em palavras anteriores, aos que me dás em sorrisos e em gestos.
Guardo religiosamente todos os pedaços de ti, para que um dia, perante os teus olhos, abra a minha caixa dos teus pedaços e aí verás que és grande. Saberás que és demasiado grande para caber nos corações de algumas pessoas, porque nem todos podem entender que os teus pedaços fazem girar mundos.
Com carinho,
C.I.
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